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‘Universidade em ritmo de barbárie’ e a racionalidade sob ataque

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  Golconda (René Magritte)  Por Helcimara Telles * É impossível ignorar o agravamento da violência política no Brasil. Mais preocupante é perceber que esse ambiente de hostilidade já atravessa os muros da universidade. Um espaço que deveria estimular pensamento crítico, dúvida e confronto civilizado de ideias passa, em muitos casos, a reproduzir lógicas   beligeantes. Quando grupos organizados tentam impor uma única leitura da realidade, o debate encolhe e o dissenso passa a ser tratado como desvio. O problema não está na presença de movimentos sociais, legítimos e indispensáveis ao avanço democrático. O desvio começa quando a militância e quadros da comunidade universitária deixam de conviver com a pluralidade e passam a exigir adesão. Nesse ponto, qualquer crítica vira ofensa, qualquer discordância vira agressão simbólica, e o espaço acadêmico perde sua razão de ser. À direita ou à esquerda, transformar divergência intelectual em falha moral sufoca a liberdade unive...

A Universidade em Manifesto: contra a intolerância dos autodeclarados “tolerantes”, pelo direito de pensar diferente e pela pluralidade

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  Francisco de Goya,  El Aquelarre*   Por Luiz Felipe Miguel** Um grupo de professores lançou recentemente um manifesto em defesa do pluralismo nas universidades brasileiras. O documento, assinado por muita gente cujo trabalho conheço, respeito e admiro, suscitou algumas reações exaltadas. A defesa do pluralismo, segundo essas reações, seria uma reação contra o avanço de grupos minoritários. A situação é complexa, mas eu acredito que existem, sim, bons motivos para preocupação com o fechamento do espaço de discussão de determinados temas nas universidades do Brasil. Já falei de uma forma de macarthismo adotada por gente que, dentro dos campi, acredita que tem o monopólio, se não da verdade (quem se importa com ela, não é mesmo?), pelo menos das boas intenções. Campanhas de cancelamento, vetos à participação em eventos ou à publicação, boicote à citação de trabalhos ainda que eles sejam relevantes, pressão [e difamação nos bastidores]... Ocorre de tudo. Eu já fui alv...

Para um novo progressismo: o lulismo se esgotou e é necessário mudar de rumo

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Manifestantes na laje do Congresso Nacional (Folhapress)    Por Luiz Felipe Miguel [*] Depois das derrotas da semana passada, uma conclusão se impõe: no último ano de seu terceiro mandato, Lula se encontra em situação similar a Dilma Rousseff no começo do segundo mandato dela, aquele que foi interrompido pelo golpe em 2016. Ele se defronta com um Congresso no qual tem sustentação muito minoritária e que não se dispõe mais a vender (ou melhor, alugar) seu apoio em troca de cargos e verbas. Enfrenta a má vontade da imprensa corporativa e dos donos do capital em geral, que veem com simpatia crescente a possibilidade de alçar ao poder uma direita pura e dura. Nesse cenário, de pouca margem para a conciliação de classes, evidencia-se aquilo que muitos analistas da conjuntura brasileira estamos dizendo há anos: esgotaram-se as potencialidades do lulismo como forma de fazer política. Baseado na evasão do confronto e na ausência de um projeto de desenvolvimento nacional e popular...

O encontro entre a Sociologia e as Neurociências: novas perspectivas sobre socialização e a relação com a infância

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Nos últimos tempos, internacionalmente, a pesquisa cientifica tem avançado muito no sentido de uma convergência entre a Sociologia e as Neurociências. Da parte das Neurociências, trabalhos como os do português (naturalizado estadunidense)   António Damásio têm contribuído para isso; da parte da Sociologia, abordagens como as do seu compatriota Pedro Abrantes, do espanhol Vicente H. Urmeneta e as do italiano Massino Blanco fazem o mesmo. Como consequência, por exemplo, determinados enfoques usuais sobre a infância são impactados, e perdem relevância analítica e explicativa, conforme as investigações em Sociologia da Infância têm evidenciado. A especificidade da socialização infantil, articulando natureza e cultura, está para além de clichês muitas vezes repetidos no campo educativo. A propósito, conforme assinala Pedro Abrantes em um dos seus trabalhos , na esfera da socialização, ocorre um encontro paradigmático entre Sociologia e Neurociências. Trata-se, em suas palavras,   d...

Do crack ao clique: dependências para além das drogas – Evento ABRAMD

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  A Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (ABRAMD) realizará o evento intitulado Do crack ao clique: dependências para além das drogas. Acontecerá de forma presencial e remota.  Palestrantes  Anna Paula Nunes - Graduada em Psicologia pela PUC/SP, é psicoterapeuta e faz parte da equipe multidisciplinar do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (PROAD/UNIFESP), onde coordena grupo de acolhimento de pessoas com dependências de comportamento. Tema da palestra: Podemos ser dominados por nós mesmos? André Pimenta de Melo - Psicólogo clínico e sanitarista baseado em Campinas - SP, especializado em Terapia Existencial. Mestre em Saúde Coletiva pela UNICAMP, atua na interface entre fenomenologia, saúde mental e atenção psicossocial. Tema da palestra: Adições: da origem à globalização João Paulo Parada - Pesquisador do Grupo de Pesquisa Educação e Drogas (GPED/UERJ); pesquisador do Programa de Pós-graduação em Ensino em Biociênci...

A quem pertencem os nossos dias? A interdição de FHC e a vida com lucidez

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Philosopher, c'est apprendre à mourir (Montaigne)   Por Ruth Aquino Para quem conheceu de perto o brilho intelectual de Fernando Henrique Cardoso [sociólogo mundialmente reconhecido, ex-Presidente da Associação Internacional de Sociologia, que se tornou Presidente do Brasil], a notícia de sua interdição [aos 94 anos], a pedido dos filhos, é, mais que um choque, um alerta.  Queremos viver tanto assim? Após a perda da lucidez? O que fazer para evitar esse capítulo doloroso para a família? Antes que o Alzheimer roube nossa conexão com o mundo, nossa autonomia. Antes que nos tornemos um fardo. Filhos pedem a interdição na Justiça quando a pessoa já não tem condições de ser responsável por mais nada. Filhos se tornam curadores. Essa decisão não é nada fácil. Vivi isso na minha família, fui curadora. Amigos e conhecidos têm enfrentado escolhas semelhantes com pais ou mães. É um luto em vida. Porque estamos vivendo demais. Nos cinemas, há um filme imperdível sobre os dilemas ...

Profissão docente e o papel do professor: conteúdo, centralidade do ensino e superação do senso comum

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Ao discutir a concepção de infância, relacionando-a à formação de professores e à atuação desses no processo educativo formal, Dermeval Saviani é paradigmático ao assinalar que a diretividade da atuação docente é irrenunciável, pois, conforme ele,   nas instituições educativas, o nexo instrução-educação somente pode ser representado pelo trabalho vivo do professor, na medida em que o docente é consciente dos contrastes entre o tipo de sociedade e de cultura que ele representa e o tipo de sociedade e de cultura representado pelos alunos. Em sentido semelhante, tendo como postulado a mesma concepção histórico-ontológica de Saviani, Newton Duarte é enfático: reafirma a imprescindibilidade do ato de ensinar e recusa as ditas pedagogias não diretivas e   do ‘aprender a aprender’, assim como as incompreensões e equívocos em torno de consignas tais como ‘ninguém educa ninguém’.   Ou seja, o referido pressuposto analítico e conceitual sustenta que o trabalho docente é um trabal...