Processo formativo: faces ocultas
Por
Ivonaldo Neres Leite (Sociólogo, Universidade Federal da Paraíba/Centro de Ciências Aplicadas e Educação)
Pierre
Bourdieu (1930-2002) foi um sociólogo
francês de origem popular, vindo de uma família da zona rural/camponesa, que,
graças ao empenho nos seus estudos, se tornou um dos maiores pensadores do
mundo. As suas pesquisas mostraram, por exemplo, que:
1) Existe
uma construção social da sexualidade, e a sociedade procura
controlar os corpos conforme as ideias que nela são dominantes;
2) Há um
fenômeno chamado habitus (não é mesma coisa que hábito) o
qual significa a incorporação pelo ser humano de formas de pensamento, maneiras
de agir, modos de perceber, etc., que as pessoas reproduzem quase
automaticamente, de forma que é como se o corpo e a mente estivessem recebendo
comandos determinado o comportamento das pessoas;
3) Existe
um tipo de violência chamada violência simbólica, que não é física, mas invisível, e se exerce através da
linguagem, impondo, por exemplo, ideias sobre aspectos da vida, as quais as pessoas
aceitam normalmente.
4) Há
um mecanismo de dominação que Bourdieu chamou poder simbólico,
que é a capacidade invisível de se estabelecer significados, normas e visões de
mundo como legítimos, perpetuando estruturas de dominação social. O poder
simbólico atua através da violência simbólica, levando os dominados a
aceitarem a sua condição como algo natural, assimilando as desigualdades sem
resistência. Entre vários outros casos, isso acontece, por exemplo, com o papel
definido para as mulheres (muitas vezes sacrificadas com a dupla jornada de
trabalho: profissional e nas atividades domésticas), assim como ocorre também
em relação ao modo como as estruturas de poder concebem a vida/destino dos
filhos das famílias menos favorecidas, isto é: eles devem seguir o mesmo
destino dos seus país, fazendo o que eles fazem, sem mudar de posição na sociedade,
permanecendo então na mesma classe social, e mantendo assim as desigualdades.
Considerando
os referidos conceitos, Pierre Bourdieu desenvolveu profundas abordagens sobre
os jovens e a educação. Os seus estudos evidenciaram, por exemplo, que as
crianças/adolescentes/jovens vindos das
classes abastadas materialmente, em geral, recebem uma primeira educação
familiar muito próxima à que receberão na escola, ou seja, os costumes e
saberes familiares são muito aproximados/semelhantes aos padrões de conduta da
escola e ao conhecimento nela ensinado. Em outras palavras, eles são
acostumados a viagens, visitas a museus, interação com as artes, contato com
livros em casa/realização de leituras, debates sobre questões envolvendo
ciência/conhecimento, além de conhecerem/usarem a linguagem que é adotada na
escola, isto é, a linguagem padrão/normativa, ao invés de se limitarem ao uso
de gírias e à informalidade comunicacional.
Por
outro lado, enfatiza Bourdieu, as crianças/adolescentes/jovens das classes
sociais desfavorecidas, em geral, pertencem a outro universo de experiências e
expressam-se de maneira diferente: uso amplo de gírias, a simplificação
elocutiva, a coloquialidade, etc. Ao chegarem às instituições educacionais,
onde a linguagem utilizada é a padrão/normativa, sendo conforme esta que os
textos/livros estão produzidos e sendo ela exigida na escrita, as referidas
crianças/adolescentes/jovens se sentem desambientados comunicacionalmente,
faltando-lhes vocabulário para, por exemplo, fazer as leituras requeridas e
entender o que os textos dizem. A consequência disso, muitas vezes, é o
insucesso escolar, com alunos tendo dificuldade de fazer leituras, não
acessando, portanto, o conhecimento que elas transmitem. Em vários casos, a
situação chega ao ponto da evasão escolar, a desistência dos estudos. Isso gera
o que Pierre Bourdieu chamou de a reprodução social, ou seja, a manutenção
da sociedade tal qual ela é: desigual, com os filhos das classes abastadas
mantendo a mesma posição privilegiada dos seus pais/avós (e até progredindo
mais do que eles), e os filhos das classes desfavorecidas continuando na mesma
posição social desfavorecida das suas famílias.
Bourdieu
também denominou os filhos das classes mais favorecidas de os herdeiros. Eles herdam um capital
cultural (além do econômico) conseguido em suas famílias (obtido através
do acesso cedo aos livros, às artes, às
viagens, visitas a museus, etc.), o qual os posiciona em condições vantajosas
nas instituições educativas.
Considerando
a ampliação do acesso das classes populares à escola e às universidades, Pierre
Bourdieu empreendeu novos desenvolvimentos à sua abordagem, desenvolvimentos
que têm sido aprofundados por seus continuadores, após o seu falecimento. A
partir disso, apontou-se o fenômeno intitulado ‘os excluídos do interior’. Quer
dizer, a existência de alunos das classes populares que, apesar de estarem
formalmente incluídos no sistema escolar (da escola básica à universidade), são
marginalizados (postos à margem) e ‘fracassam’ devido à falta de capital
cultural. O nível do ensino é rebaixado para que eles continuem seguindo as suas
trajetórias, sem serem reprovados nos cursos, de modo que os concluam, mas, ao
os concluírem nessas condições, os seus diplomas não os habilitam para mudar de
vida, isto é, para mudar de condição social, alcançando postos de trabalho
qualificados e recompensadores. Estes postos continuam sendo ocupados pelos herdeiros,
conforme a expressão de Bourdieu.
Diante
do exposto, se verdadeiramente se entende a educação como um meio de mudança
para a vida das pessoas e para a mudança social em geral, não é, de forma
nenhuma, admissível que, no cotidiano da sala de aula, se rebaixe o nível de
ensino ofertado, ignore-se os indicadores de qualidade que a educação deve ter,
o professor abdique de seu papel diretivo e se abra mão do responsável rigor (algo
diferente de rigidez) que deve nortear o processo formativo.
A não
ser assim, principalmente atualmente, as instituições educativas estarão a
viver a perversa farsa da ‘inclusão excludente’, que, sob novas formas, alimenta
as injustiças da desigualdade social. O desprezo pelo estudo e pelo
conhecimento - às vezes ocultado em apologias a ideias supostamente “avançadas”
e no exibicionismo de tagarelas ações performáticas - não leva a um bom porto.
De resto, a ignorância não liberta ninguém.

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