Dermeval Saviani, Paulo Freire e os conteúdos sistematizados: o diferencial da Pedagogia Histórico-Crítica
A educação
brasileira é imersa em intensos embates teóricos e práticos, mas, desde o Golpe
de 2016, o debate na esfera do senso comum concentrou-se na defesa incessante
de Paulo Freire, devido aos ataques que a extrema-direita inculta faz ao
educador. Movimento correto de defesa de um educador comprometido com uma
educação democrática. Mas sugiro sairmos da esfera do senso comum e
aprofundarmos o debate. Dentre as correntes críticas da educação no Brasil,
duas se destacam: a Pedagogia Histórico-Crítica (PHC), de Dermeval Saviani, e a
Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire. Ambas são críticas, mas partem de bases
filosóficas distintas: Freire, com raízes no idealismo hegeliano e na
fenomenologia; Saviani, no materialismo histórico-dialético marxista. Este
texto não busca apagar as diferenças entre as duas, tampouco promover uma
síntese apressada. Ao contrário: o que proponho é tensionar. Porque, em tempos
de pedagogias pasteurizadas e ecléticas, tensionar é preciso.
Aos desavisados,
não nego a importância de Paulo Freire. Ele é, sem dúvida, um dos maiores
educadores do Brasil. Sua pedagogia é política e está enraizada na escuta, no
diálogo, na denúncia da opressão. Seu ponto de partida não é o conteúdo, mas a
experiência vivida, a leitura do mundo que precede a leitura da palavra.
Freire nos ensina
que a escola deve ser um espaço de problematização da realidade, e não de
adaptação a ela. No entanto, sua abordagem, fundada no existencialismo cristão,
na fenomenologia e no humanismo hegeliano, também tem limites, e significativos
em muitos casos. Ao priorizar a consciência crítica e o diálogo, sua pedagogia,
muitas vezes, deixa em aberto a mediação sistemática do conhecimento
historicamente produzido. Essa lacuna pode abrir espaço para práticas
espontaneístas, relativistas ou mesmo descompromissadas com o rigor
necessário para que o educando se aproprie de saberes científicos e
culturais.
É nesse ponto que
a Pedagogia Histórico-Crítica, de Saviani, se apresenta como um contraponto
necessário. Com base no materialismo histórico-dialético, Saviani não parte da
consciência, mas das condições concretas da existência. A escola, para ele, é
uma instituição que, embora marcada por contradições, pode e deve ser
transformada desde dentro, como instrumento de emancipação.
Sua proposta é
clara: garantir o acesso aos conhecimentos historicamente elaborados pelas
gerações passadas como forma de romper com o ciclo de marginalização cultural e
social. “A prática educativa é uma mediação da prática social global, tendo por
objetivo transformá-la”, afirma Saviani. Daí a sua defesa da escola pública
como espaço legítimo de disputa, de transmissão crítica e não alienada dos
saberes.
Sua metodologia,
com etapas que vão da prática social inicial à prática social transformada, é
uma tentativa de sistematizar o ensino sem cair no tecnicismo. Saviani defende
uma escola rigorosa, intencional, que compreende o papel formador do
conhecimento.
Freire, com sua
pedagogia da escuta, é essencial para que o educador não perca de vista a
dignidade e a historicidade do sujeito. Saviani, com sua pedagogia do conteúdo,
é imprescindível para que esse sujeito possa disputar os códigos da cultura
letrada, científica e filosófica produzida historicamente.
Então, afinal,
Freire e Saviani são conciliáveis?
A resposta não é
simples. Na prática cotidiana da escola pública, muitos professores tentam
misturar as duas abordagens — às vezes por convicção, às vezes por falta de
aprofundamento teórico. O resultado, com frequência, é o ecletismo: um amálgama
incoerente onde o diálogo perde profundidade e o conteúdo vira pretexto para
atividades descoladas da realidade social.
Não se trata de
escolher entre um e outro como se estivéssemos num jogo de times. Trata-se de
compreender o lugar histórico, filosófico e político de cada um. Freire é a
faísca que acende a crítica. Saviani é a estrutura que canaliza essa energia
para, com consistência e profundidade, em função de projetos transformadores. A
pedagogia emancipatória precisa dos dois, mas não de qualquer jeito.
O que proponho
aqui não é uma conciliação simplista entre perspectivas que são claramente
diferentes. Ao contrário, reconheço uma tensão real, que exige escolhas
teóricas, políticas e pedagógicas consistentes. Freire nos legou uma pedagogia
da escuta e da denúncia, que repercute fortemente em contextos de opressão. Mas
a sua base filosófica não materialista encontra limites quando se trata da
apropriação sistemática do conhecimento (além de existirem várias questões
problemáticas na louvação que se faz dele). É aí que a Pedagogia
Histórico-Crítica de Saviani, fundada no materialismo histórico-dialético, se
apresenta como uma alternativa mais sólida para quem busca uma educação
verdadeiramente transformadora, não apenas crítica, mas rigorosa, comprometida
com a formação humana plena e com a superação das desigualdades sociais. Não
basta querer mudar o mundo: é preciso saber como.
