‘Universidade em ritmo de barbárie’ e a racionalidade sob ataque
| Golconda (René Magritte) |
Por Helcimara Telles*
É impossível ignorar o agravamento da violência política no Brasil. Mais preocupante é perceber que esse ambiente de hostilidade já atravessa os muros da universidade. Um espaço que deveria estimular pensamento crítico, dúvida e confronto civilizado de ideias passa, em muitos casos, a reproduzir lógicas beligeantes. Quando grupos organizados tentam impor uma única leitura da realidade, o debate encolhe e o dissenso passa a ser tratado como desvio.
O problema não
está na presença de movimentos sociais, legítimos e indispensáveis ao avanço
democrático. O desvio começa quando a militância e quadros da comunidade
universitária deixam de conviver com a pluralidade e passam a exigir adesão.
Nesse ponto, qualquer crítica vira ofensa, qualquer discordância vira agressão
simbólica, e o espaço acadêmico perde sua razão de ser. À direita ou à
esquerda, transformar divergência intelectual em falha moral sufoca a liberdade
universitária.
Desse fechamento,
nasce um ambiente tóxico. A cultura do cancelamento opera como tribunal
apressado: alguém expressa uma opinião divergente, um grupo [ou apenas algumas
pessoas] a classifica como inaceitável, vira acusação e a condenação vem antes
de qualquer reflexão. Em vez de argumentos, há difamação [pública e nos
bastidores]; em vez de debate, há destrato pessoal. Onde um ambiente assim se
instala, a inteligência recua e a vida acadêmica atrofia, limitando-se a
rituais performáticos de solenidades, marketing pessoal e tratativas burocráticas.
É nesse ponto
que a teoria da espiral do silêncio, de Elisabeth Noelle-Neumann, ajuda a
compreender o problema. Quando percebem que sua opinião é minoritária ou
propositadamente atacada sem razão, indivíduos tendem a se calar ou a se
retirar dos contextos onde eles estão. Nas universidades, isso se agrava: professores
e estudantes, para evitar rótulos e perfídias, exposição ou cancelamento,
deixam de levantar dados, fazer análises, expor concepções teóricas e realizar
críticas.
O silêncio dos
divergentes cria a ilusão de unanimidade, e ilude os que, com agressividade,
destempero e desprezo pela racionalidade, enganam-se imaginando que dominam a
cena.
De toda forma, os
efeitos são profundos: restringe-se a discussão pública, reforça-se a sensação
de que apenas uma visão é aceitável e amplia-se o fosso entre quem fala sem custo e quem silencia. Em
ambientes polarizados, uma simples crítica basta para acionar rótulos
desqualificadores em relação a opiniões divergentes. Grupos fechados em suas
próprias causas perdem a capacidade de escuta, criam bolhas e pretendem
transformar a universidade em arena de pensamento único, quando ela deveria ser
um espaço de elaboração crítica [e autocrítica] do conhecimento.
Se a universidade
quiser preservar sua relevância democrática, precisará reagir. Isso significa
defender uma cultura institucional plural. Na prática, isso exige abordagens realmente
plurais e ensino comprometido com a problematização analítica, e não com
fidelidades ideológicas e teóricas que tratam autores de modo religioso, não
admitindo críticas a eles. Como se não fossem humanos, e as suas obras não
fossem resultado do movimento da história e de contextos específicos, o que significa
dizer que novos contextos históricos podem tornar desatualizados enfoques elas
defendem.
Professores devem apresentar teorias em sua pluralidade; estudantes devem ser encorajados a escrutinar as diversas perspectivas apresentadas. Coletivos têm papel importante, mas não podem reivindicar o monopólio da legitimidade moral e da verdade.
Romper com o patrulhamento de ideias e político dentro da universidade não é um capricho intelectual, mas uma exigência democrática. Se o campus se tornar um lugar onde só se fala a partir de uma única visão, perderemos não apenas a liberdade acadêmica, mas a própria ideia de universidade.
* Cientista
política, professora universitária, autora de obras como Das ruas às urnas:
partidos e eleições no Brasil contemporâneo (Editora da Universidade de
Caixas do Sul, 2003).
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