Ameaças à universidade como instituição republicana ou da intolerância ideológica, da insensibilidade e do silêncio covarde
![]() |
| 'O sono da razão produz monstros' (Tela de Francisco Goya) |
Por Luís Felipe Miguel
(Cientista político, professor na Universidade
de Brasília, UnB; autor, entre vários outros livros, de
‘Consenso y Conflito en la Democracia Contemporánea, Buenos Aires: Eudeba,
2022)
Na série de debates que encenou com o autor ultrarreacionário e teórico da conspiração Dinesh D’Souza, no início dos anos 1990, Stanley Fish ridiculariza a ideia de que os campi das universidades dos Estados Unidos estavam sendo tomados por hordas de ativistas, que impunham sua agenda – na época, chamada de “multicultural” ou “politicamente correta” – em detrimento de valores acadêmicos consolidados. Uma visão exagerada, unilateral, destinada a gerar pânico e deslegitimar vozes emergentes. Da sua posição de professor de literatura, Fish desmonta balelas como a de que A cor púrpura, o livro de temática antirracista da escritora Alice Walker, seria mais estudado nas universidades do que a obra de Shakespeare.
Muita água passou debaixo da ponte,
tanto lá quanto aqui no Brasil, desde então. Nos Estados Unidos, hoje são os
aliados do senhor D’Souza que estão com a faca e o queijo na mão. É a
extrema-direita que representa a ameaça principal à liberdade nas universidades.
As políticas de diversidade, equidade e inclusão ruíram com o primeiro sopro do
lobo mau, tal como a choça do porquinho menos precavido. Aliás, este fato é
suficiente para colocar em xeque a visão de Fish, de que os grupos dominados
devem se impor pela força bruta, quando ganham influência política, sem se
preocupar em justificar suas demandas em termos de valores universalizáveis,
mas esta é uma discussão para outro momento.
No Brasil, a universidade sofre pressões
de todos os lados. A direita hidrófoba a acusa de “doutrinadora”, o privatismo
a pressiona incessantemente. Não, o ativismo dos grupos identitários que tentam
impor sua nova ortodoxia a ferro e fogo não é a única, nem mesmo a maior ameaça
à universidade.
Nem por isso suas investidas deixam de
ser perniciosas. Dois episódios recentes, dessemelhantes entre si, mas tendo em
comum esse pano de fundo, são ilustrativos, expondo o mal-estar nas
universidades brasileiras, causado por grupos que tentam instrumentalizar seus
espaços em favor de agendas que, sob o manto de uma retórica emancipatória,
servem a disputas de poder.
O fato de que foram recebidos com o
silêncio, em vez do repúdio, de grande parte dos intelectuais “progressistas” é
a prova do quanto são poderosos a intimidação, o cancelamento, o amordaçamento
da crítica.
Refiro-me aos casos da doutoranda da
UFSC, que foi proibida de levar adiante a sua tese, e do funcionário da UFPB,
condenado a um ano de prisão por cumprir suas obrigações profissionais.
Na UFSC: embora já tivesse antes
aprovado o projeto da doutoranda Celina Lazzari, o comitê de ética em pesquisa
com seres humanos decidiu suspender a realização do trabalho, com base em uma
“denúncia” – relativa não à tese, mas a posicionamentos públicos de Lazzari,
que é uma feminista crítica à anulação da materialidade do sexo pelo discurso
da “identidade de gênero”. Esta posição é estigmatizada como “transfóbica” por
grupos que querem bloquear o debate, fazendo de suas ideias dogmas não apenas
políticos como também científicos.
O projeto de tese era investigar como
assistentes sociais reagem a crianças e adolescentes que se identificam como
trans. Não envolvia entrevistas com as crianças, apenas com os profissionais.
Tudo indica que a decisão do comitê de ética se deveu não a uma preocupação
legítima, mas a uma discordância com a abordagem teórico-política da
doutoranda. Creio que se pode falar de “prevaricação” do comitê, que é quando o
agente público age contra a lei para satisfazer um interesse pessoal (ou de um
grupo).
Não é preciso simpatizar com a posição
de Lazzari para reconhecer que ela foi vítima de uma grave arbitrariedade. Não
cabe ao comitê de ética vetar pesquisas que não representem riscos para as
pessoas pesquisadas.
Quanto à qualidade científica do
trabalho, cabe à banca avaliar. No caso, a doutoranda recorreu à justiça, pôde
defender a tese e foi aprovada.
Na UFPB: anos atrás, uma pessoa que se
identifica como “mulher trans” foi impedida de entrar no banheiro feminino. Ela
afirmou que era trans, mas a funcionária terceirizada e em seguida o servidor
responsável pelo setor disseram que somente mulheres podiam frequentar aquele
espaço. (Eu estive em João Pessoa pouco depois do episódio, conheci a pessoa em
questão e posso atestar que ela tinha uma aparência bastante masculina.)
Mais um episódio da batalha dos
banheiros femininos. Uma parcela do ativismo trans, levando às últimas
consequências a noção de que a única coisa que importa é a “identidade de
gênero” subjetiva, cuja verdade só é acessível ao próprio indivíduo, deseja estigmatizar
mulheres que se sentem desconfortáveis com a presença de pessoas com sexo
biológico e aparência masculinos em espaços que deveriam ser exclusivos para
elas. Aqui mesmo, na UnB, houve o caso de uma pessoa barbada que filmou a si
própria ameaçando, com seu vozeirão imponente, “meter a mão na cara” de uma
menina que reclamou de sua presença ali – e depois postou nas redes sociais,
para receber os aplausos dos militudos.
A diferença, na UFPB, é que o caso foi
levado aos tribunais. A funcionária terceirizada foi absolvida, mas já tinha
sido demitida. O servidor da universidade foi agora condenado a um ano de
prisão. Ainda vai recorrer, mesmo se perder deve conseguir sursis, mas tem o
estresse, a exposição, a perda do réu primário.
Nas redes, o pivô da história tem
contado sua versão, na posição de vítima, descrevendo como se sentiu
“violentado” e desdenhando do fato de que uma mãe de família perdeu o emprego,
um pai de família arrisca ser preso.
O fato é que os trabalhadores da UFPB,
assim como a esmagadora maioria das pessoas do Brasil, estavam alheios às
tretas das bolhas “descoladas”. Faziam o seu serviço; afinal, existem banheiros
femininos exatamente para que homens não entrem neles. Para tanto, utilizavam
as ferramentas de que dispunham: as convenções que organizam a vida humana
desde seus primórdios, o bom senso.
Podemos e devemos discutir como
encaminhar a questão do uso dos banheiros, de uma maneira que ninguém se sinta
desconfortável ou em insegurança. Mas fazer dois trabalhadores de bodes
expiatórios é bem significativo da escala de prioridades de certa “esquerda”
atual.
Há um cuidado extremo com as
“identidades” de determinados grupos. Curiosamente, essas identidades são, ao
mesmo tempo, muito poderosas, pois determinam completamente quem aquela pessoa
é, e imensamente frágeis, já que podem desmoronar se escutam uma palavra
errada.
E, ao lado desse cuidado extremo, uma
insensibilidade absoluta com as agruras de outros grupos dominados, em
particular a classe trabalhadora e as mulheres.
Quando a pessoa que levou à demissão da
trabalhadora e à condenação do servidor sublinha seu próprio sofrimento
incomensurável por ter ouvido um pronome de que não gostava, só penso no
narcisismo de alguém que, de um local de relativo privilégio (estudante de uma
universidade prestigiosa), não é capaz de nenhuma empatia com a vida de
trabalhadores que sofrem desafios e violências cotidianas infinitamente mais
graves.
É uma insensibilidade, para não dizer
uma crueldade, fomentada pela deriva identitária, que, por um lado, faz do
próprio grupo a única preocupação digna de atenção e, por outro, escolhe o
punitivismo como forma privilegiada de ação.
O silêncio de tantas vozes progressistas
sobre a violência sofrida pelos trabalhadores da UFPB é ensurdecedor.
Mas vimos, por outro lado, alguns grupos
vocalizando uma estranha solidariedade com o ex-professor de Cambridge que se
suicidou. O drama pessoal realmente é chocante. Uma pessoa jovem que põe fim à
própria vida. Um caso triste.
Há muitas informações desencontradas e
alguma incerteza sobre os fatos. Ao que tudo indica, tratava-se de uma
pessoa desequilibrada, um mitômano de sucesso, que não aguentou a derrocada.
Mas reduzir tudo a um componente racial
e sair dizendo que a universidade errou ao demiti-lo porque “outros plagiaram e
não perderam o cargo” já é demais. Plágio não é um pecadilho: é uma
manifestação gravíssima de desonestidade intelectual. Se outros casos não foram
punidos, a solução não é “liberar geral”, mas apertar os controles.
E, no caso, não se tratava apenas de
plágio. Existiam falsificações no currículo, uma boa quantidade de mentiras
sobre sua trajetória de vida e um histórico de relatos de proezas inventadas e
de denúncias de agressões e ameaças que nunca existiram. Os casos similares de
que tenho notícia levaram sempre à demissão.
Jason Arday ilustrava a tática da
vitimismo como ferramenta de ascensão no meio acadêmico. Lar disfuncional,
déficit de aprendizagem, perseguição permanente, essas eram suas credenciais
(muitas delas aparentemente sem lastro na realidade). O reverso da medalha,
claro, é a narrativa da superação, que é onde o discurso identitário muitas
vezes se encontra com a meritocracia neoliberal.
Aqui mesmo no Brasil, não faltam cursos
vendidos na internet, ministrados por pessoas que se apresentam não por algum
tipo de formação ou de trabalho com a temática, mas com qualificativos como
“gorda maior”, “TDAH”, “não binárie”, “filho de pais alcoólatras”.
Pior ainda é ver uma famosa influencer
acadêmica dizendo que acusar alguém de plágio é uma “violência”, que “retira da
pessoa a autoridade sobre a própria voz, contamina tudo o que foi construído e
produz o sentimento de que nunca se pertenceu ao lugar que se conquistou”.
Mas se a “própria voz” não é própria, se
“tudo o que foi construído” foi construído surripiando o trabalho alheio, se “o
lugar que se conquistou” foi conquistado com desonestidade?
E o plagiado, não tem direitos? E aquele
que perdeu uma oportunidade porque trabalhou dentro das regras e foi atropelado
por um espertalhão, esse deve se assumir como trouxa e ficar quieto?
Devemos passar a mão na cabeça de todo
mundo, permanentemente, e por isso anular os mínimos requisitos éticos e de
competência para permanência na universidade? É forçoso reconhecer que,
infelizmente, faz tempo que certo discurso deslizou para isso, para o
descolamento entre acesso, permanência e a efetiva democratização das
ferramentas próprias do saber acadêmico. Sem esta última, não há inclusão real.
O veredito de Stanley Fish continua de
pé. Não é verdade que o identitarismo tenha destruído a universidade. Mas está
tentando, com sua campanha sem tréguas contra o método científico, pela
interdição do debate de questões espinhosas, por uma adesão obrigatória a seus
dogmas, pelo rebaixamento dos critérios em nome de uma “inclusão” que é apenas
nominal.
Se a esquerda se sente intimidada e não
se posiciona contra seus falsos aliados, não apenas se torna cúmplice, como se
desmoraliza.
