A quem pertencem os nossos dias? A interdição de FHC e a vida com lucidez
Philosopher, c'est apprendre à mourir (Montaigne)
Por Ruth Aquino
Para quem conheceu de perto o brilho intelectual de Fernando Henrique Cardoso [sociólogo mundialmente reconhecido, ex-Presidente da Associação Internacional de Sociologia, que se tornou Presidente do Brasil], a notícia de sua interdição [aos 94 anos], a pedido dos filhos, é, mais que um choque, um alerta.
Queremos viver tanto assim? Após a perda da lucidez? O que fazer para evitar esse capítulo doloroso para a família? Antes que o Alzheimer roube nossa conexão com o mundo, nossa autonomia. Antes que nos tornemos um fardo.
Filhos pedem a interdição na Justiça quando a pessoa já não tem condições
de ser responsável por mais nada. Filhos se tornam curadores. Essa decisão não
é nada fácil.
Vivi isso na minha família, fui curadora. Amigos e conhecidos têm
enfrentado escolhas semelhantes com pais ou mães. É um luto em vida. Porque
estamos vivendo demais.
Nos cinemas, há um filme imperdível sobre os dilemas éticos e morais de
vida e morte. “La Grazia” (“A Graça”), de Paolo Sorrentino, acompanha um
fictício presidente italiano, Mariano De Santis, a seis meses do fim do
mandato, com um projeto de lei da eutanásia sobre a mesa, à espera de sua
assinatura.
“Se não promulgo, sou um torturador; se promulgo, sou um assassino”.
Muito cuidado ao desejar vida longa a alguém. Melhor desejar vida digna. Se
algum direito temos como ser humano, é o direito a uma vida com lucidez.
A questão central do filme de Sorrentino é “a quem pertencem nossos dias?”.
De preferência, a nós mesmos.
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