Para além dos discursos polarizados, existe a realidade: a Venezuela e a necessidade de análises objetivas

Pareidolia: tendência de ver rostos humanos
em formas que são só remotamente parecidas
Por Luís Felipe Miguel
(Cientista político; autor, entre vários outros livros,
de ‘Consenso y conflito en la democracia contemporánea, Buenos Aires: Eudeba,
2022)
Dois
traços marcantes de todos nós, humanos, são criar narrativas e tomar lado,
separando os bons dos maus. Pode ser que venha de fábrica, como parece que é a
tendência de ver rostos humanos em quaisquer objetos remotamente assemelhados.
Ou talvez seja efeito de nossa socialização primária – os contos de fada, quem
sabe?
Mas o
fato é que, diante de uma tevê ligada em uma sala de espera, passando uma
partida de futebol entre duas equipes desconhecidas, bastam poucos minutos para
que nossa simpatia se incline para um dos lados. E que, com qualquer fragmento
de informação, logo acionamos nosso repertório de explicações padronizadas e
escolhemos aquela que julgamos mais adequada, para operar com ela ao menos de
forma provisória.
Podemos
pensar também no Horse Race Test, um “jogo” que fez sucesso no Twitter no ano
passado. Avatares toscos de cavalos vagavam aleatoriamente até encontrarem
cenouras, o que não impediu de surgirem fãs apaixonados de alguns dos
competidores e elaboradas teorias conspiratórias sobre por que o cavalo ciano
sempre perdia. O perfil do Horse Race Test tem hoje mais de 160 mil seguidores.
Ao
mesmo tempo, nossa tendência de tomar lados faz com que seja grande a tentação
de estabelecer um vilão e um mocinho. Para que esta narrativa seja coerente, no
entanto, é preciso de muita seletividade quanto às informações que serão
levadas em conta.
À
direita vê Nicolás Maduro como um ditador cuja queda precisa ser comemorada.
Donald Trump, naturalmente, ocupa o lugar de herói: é aquele que, motivado por
ideais nobres, foi capaz de derrotar o malvado e levá-lo para que receba a
justa punição.
Isso
só faz sentido se é menosprezada toda a ideia de direito internacional e de
soberania das nações – o que é feito, em geral, de forma implícita. É preciso
também ignorar deliberadamente que o próprio Trump, em seu discurso
autolaudatório depois do sequestro do presidente venezuelano, falou sem parar
de petróleo mas se esqueceu de mencionar a democracia.
Políticos
bolsonaristas não disfarçaram a esperança de que os Estados Unidos dessem uma
forcinha para tirar Lula da presidência, com ou sem eleições no final deste
ano. Não vou dizer que tiraram a máscara porque faz tempo que já não usam
nenhuma: estão poucos se lixando para a soberania nacional ou para a
democracia. Mas relatos com esse teor vieram também de analistas da imprensa,
que, ao menos pretensamente, deveriam prezar pela qualidade mínima daquilo que
apresentam. Temos desde a sempre folclórica Natália Beauty, afirmando que o
destino de Maduro é um alerta para governantes que não apoiam o
“empreendedorismo”, até Joel Pinheiro da Fonseca, que gosta de pensar que está
em outro patamar, colocando uma ressalva aqui, outra ali, mas, no geral,
saudando a promessa de renascimento de uma democracia venezuelana.
São
relatos, também, que creditam toda a calamidade humanitária na Venezuela de hoje
às taras do próprio regime, ignorando o papel exercido pelo boicote dos Estados
Unidos e de seus aliados internos, Mas, à esquerda, se vê o oposto. Não faltam
comentaristas que tecem loas ao regime de Maduro que – dizem eles – só não era
o paraíso na Terra por causa do imperialismo ianque.
Este
tipo de ilusão é mais grave quando ocorre à esquerda, porque a esquerda deveria
se basear – como dizia Lênin – na “análise concreta da situação concreta”.
O
processo político venezuelano, desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, é
complexo. Não há dúvida de que houve um esforço de afirmação da soberania
nacional que atingiu os interesses estadunidenses e levou a uma reação feroz do
imperialismo ianque. Mas não há dúvida também que o propalado socialismo sempre
foi muito mais uma figura de retórica do que qualquer outra coisa. Basta
assinalar que, ao fim da primeira década do século XXI, isto é, após também dez
anos de governo bolivariano, o setor privado ampliara sua participação na
economia venezuelana, o capital se apropriava de uma parcela maior da riqueza
nacional e a taxa de exploração do trabalho crescera.
Também
é verdade que o regime perdeu legitimidade ao longo dos anos, o que tanto
estimulou quanto foi resultado de uma escalada autoritária, acentuada fortemente
nos anos de Maduro no poder. As suspeitas de que as últimas eleições
presidenciais foram fraudadas são, para dizer o mínimo, bastante verossímeis.
Desde o começo, porém, iniciativas de participação política popular eram
combinadas com forte centralização do poder, personalismo exacerbado e
militarização do aparelho estatal.
A
Venezuela serviu de espantalho para a direita latinoamericana, sendo usada para
desviar a atenção dos graves problemas de outros países do subcontinente,
governados pela direita e submissos aos Estados Unidos. Mas isso não nega a
gravidade dos problemas da própria Venezuela.
Deve
ser possível denunciar a agressão estadunidense, a motivação imperialista que a
animou e a ilegalidade do sequestro de Maduro sem negar o autoritarismo de sua
presidência e o caráter duvidoso de sua eleição. Assim, aliás, como deve ser
possível denunciar a invasão russa à Ucrânia sem fazer de Zelensky um herói ou
da OTAN uma empreitada do bem. Ou denunciar o genocídio em Gaza e a
inadmissível ocupação colonial israelense sobre o território do povo palestino,
do rio ao mar, sem esquecer que o Hamas é um grupo fundamentalista.
Tudo
isso é necessário para ver o mundo clareza – e para saber como intervir mesmo.
O
entendimento da natureza do governo de Maduro também é necessário para tentar
compreender o desenrolar dos acontecimentos. É constrangedor ver um jornalista
como Breno Altman – um sujeito capaz, sem dúvida, mas preso em sua persona de
stalinista impenitente e porta-voz brasileiro do regime venezuelano –
vituperando contra quem sugere que possa ter havido um acordo entre a
presidente interina, Delcy Rodríguez, e Donald Trump.
Segundo
ele, pensar nessa hipótese seria como uma traição, destinada a “desmobilizar a
resistência”.
Aliás,
Altman sempre propagandeou que o grande diferencial da Venezuela era a
“mobilização popular”. Até ficou famosa a resposta da ex-presidente Dilma
Rousseff, questionada por ele e explicando que quem garantia o regime não era a
mobilização popular, mas as forças armadas. E agora, quando a reação popular à
agressão imperialista se mostra quase inexistente, revelando o desânimo e o
desencanto dos setores que no passado foram base do chavismo, ele tem pouco a
falar.
Não
pode ser “traição” encarar a realidade. Regimes fechados costumam ter sua
cúpula dividida em camarilhas imersas em disputas internas. Processos
inicialmente revolucionários em decrepitude fomentam o oportunismo. Muitos
relatos sobre a Venezuela, inclusive de antigos apoiadores de Chávez, dão conta
de ambos os fenômenos.
São
suposições, claro, mas a hipótese de colaboração interna é a que melhor explica
a surpreendente ausência de baixas estadunidenses na operação de sequestro de
Maduro. Não pode ser descartada por dogmatismo.
O fato
é que Trump fez todas as suas bravatas, mas descartou impor um oposicionista
como chefe da Venezuela e aceitou Rodríguez como presidente do país. E ela, por
sua vez, continua com a retórica de que Maduro deve ser libertado, mas ao mesmo
tempo anuncia que deseja uma relação “equilibrada e respeitosa” com Washington.
Trump anunciou que 50 milhões de barris de petróleo venezuelano que seriam
destinados à China agora serão dos Estados Unidos. Os chineses deram mostras
que acreditaram.
Mas,
claro, não falta gente que prefere acreditar nas fake news triunfalistas de
algum Pepe Le Gambá, falando sobre como os EUA chegaram ao fundo do poço.
Só o
desenrolar dos acontecimentos vai trazer luz, mas, no momento, é razoável
imaginar que os dois lados veem como possível tentar um acordo – e os termos
dele, não é preciso ser muito perspicaz para imaginar, incluiriam a permanência
da camarilha dirigente venezuelana no poder, de um lado, e tratamento mais
camarada para as petroleiras estadunidenses, do outro.
Em vez
de mandar tropas para controlar o país, com resultado provavelmente desastroso,
ou tentar empossar uma María Corina da vida, que não controlaria os militares e
geraria uma crise permanente, faz sentido que Trump consiga um arranjo com o
governo atual. É o caminho mais rápido para a “estabilização”, até porque, sem
o apoio dos EUA, a oposição de direita ao regime vai à míngua.
É
razoável, eu escrevi – não é certo. Mas se trata realmente disso: reconhecer a
incerteza, pensar em cenários prováveis sabendo que não estão definidos, usar a
navalha de Ockham, resistir à tentação de acreditar em narrativas mirabolantes
apenas porque aquecem nosso coração.
E
lembrar sempre que embora claramente exista um vilão, não há mocinho nessa
história.
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Artigo originalmente publicado no Substack do autor -
versão para assinantes. As figuras que o ilustram são de
responsabilidade dele.
